• Andre Zanki Cordenonsi

Os 90 Anos de Tintim



Qualquer obra que atinge uma marca secular traz, no seu rastro, uma carga salutar de controvérsias. Não poderia ser diferente com Tintim, de Hergé (pseudônimo de Georges Prosper Remi), belga de nascimento, nascido em 1907 e falecido em 1983.


Tintim é o seu personagem mais famoso, o jovem repórter investigativo que viaja o mundo na companhia de Milu e do beberrão Capitão Haddock. Em vinte e quatro álbuns (o último, inacabado), Tintim viaja por todo o mundo e até mesmo para a lua. Misturando fatos reais e uma imaginação fértil, o repórter é sinônimo de aventura no mundo ocidental.


Uma análise mais acurada da obra de Hergé, no entanto, aponta vários problemas em seus trabalhos iniciais. O abade Norbert Wallez, um fascista assumido e que editava a revista Le XXe Siècle, convidou Hergé para trabalhar no Le Petit Vingtième, um suplemento voltado ao público infantil, católico e anti-semítico. Hergé cria o personagem Tintim e deseja enviá-lo para os Estados Unidos da América, mas Wallez exigiu que as tiras se passassem na União Soviética. Surge as tiras publicadas entre 1929 e 1930, reunidas posteriormente para o álbum Tintim no País dos Sovietes.


Único álbum em preto e branco, o tom da história é claramente propagandista. Vivia-se, na época, o regime de Josef Stalin e Tintim se coloca como um repórter em busca da verdade sobre o regime. O problema é que, influenciado ou não pelo editor, o tom da história é maniqueísta. Os sovietes são retratados como brutos e desalmados, não importando se concordavam ou não com Stalin. Em muitas partes, a história é absolutamente ingênua, opinião que o próprio Hergé viria a concordar anos mais tarde. Incomodado com a história e admitindo não ter realizado uma pesquisa adequada sobre o tema, ele proibiria a sua reedição até 1973.






Seu segundo álbum, Tintim no Congo, é tão problemático quanto o primeiro. No entanto, ao invés de denunciar um regime, aqui a propaganda serviu aos interesses do governo da Bélgica, que queria atrair uma opinião mais favorável ao processo de colonização no Congo. Milhares foram mortos nas minas e nas plantações para cumprir as metas de produção. Enquanto isso, a desculpa oficial era que os congolenses eram incivilizados e precisavam absorver o mais rapidamente possível a cultura européia. Tintim no Congo é, em essência, somente isso. Ele mostra um Tintim caçador - algo impensável nos álbuns seguintes - e uma população essencialmente ingênua e não educada, pronta para absorver a educação e o conhecimento do "branco" superior.




Finalmente, no terceiro álbum, Hergé consegue fazer o que gostaria desde o início: mandar Tintim para os EUA. Mas o resultado não é muito melhor. Em Tintim na América, o nosso caro repórter vai enfrentar ninguém menos do que Al Capone que, por algum motivo, acredita que ele seja uma espécie de 'perigo' devido às suas habilidades investigativas. Ele luta contra os gângsters, é perseguido e ajudado por peles-vermelhas e volta a brigar contra os gângsteres. É interessante que uma cena, onde os peles-vermelhas são expulsos pelos soldados americanos após a descoberta de petróleo em suas terras, vai acabar desaparecendo das edições seguintes da história, contra a vontade de Hergé. A história é infantilizada e bastante abrupta em alguns pontos.




Agora, uma opinião bastante pessoal. Muitos consideram que O Lótus Azul, quinto álbum, como a obra prima do autor (opinião que concordo). Além disso, O Lótus Azul também é considerado o álbum de amadurecimento de Hergé como roteirista. Para mim, no entanto, os elementos que vão popularizar Tintim já estão presentes no quarto álbum, Os Charutos do Faraó. Abandonando de vez o maniqueismo e o tom infantilizado das primeiras três histórias, Os Charutos do Faraó apresenta uma trama densa, que envolve escavações arqueológicas e o tráfico internacional de drogas. É neste livro que somos apresentados ao vilão Rastapopoulos e aos impagáveis detetives Dupont e Dupond, que vão concentrar boa parte do alívio cômico do álbum. O tom aventuresco e detetivesco do álbum, que vai se tornar uma regra nas histórias seguintes, prende o leitor do início ao fim. A história fez tanto sucesso que foi publicada imediatamente após a sua publicação na revista e foi completamente redesenhada e colorida em 1955.


Para finalizar esta pequena homenagem aos 90 anos de Tintim, não poderíamos deixar de falar de O Lótus Azul. Bastante influenciado pela convivência de Hergé com Zhang Chongren, um estudante chinês que vivia em Bruxelas, este é o primeiro álbum onde o autor faz uma pesquisa profunda sobre o tema. Zhang explica a situação política do país, a convivência com os japoneses e as zonas comerciais europeias. Hergé percebe que boa parte do que sabe sobre a China é baseado em preconceitos largamente difundidos na Europa e se propõe a escrever uma história que combatesse tais mitos. Zhang supervisionou todos os desenhos de Hergé, incluindo as frases em mandarim que aparecem nos muros das cidades visitadas por Tintim. Mesmo criticando fortemente os europeus, que são aliados dos japoneses durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa, o álbum fez bastante sucesso na Europa e em todo o ocidente.


Tintim, assim como Astérix, foram os dois primeiros quadrinhos europeus em que pus as mãos. Depois de anos massacrado pelos berros histriônicos da Marvel e da DC, descobrir histórias em quadrinhos com uma narrativa completamente diversa como o estilo de banda desenhada foi um sopro de vida, sensação que trago dentro do peito até hoje. Meus quadrinhos do Le Chevalier evocam, de uma forma ou de outra, a longa tradição da banda desenhada aventuresca que floresceu na Europa durante o século passado e que está cada vez mais ativa neste novo milênio.


Longa vida à Tintim. Que venham mais 90 anos!

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